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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Fã Clube

Quando eu tinha 9 anos, adorava um certo programa de TV. Tinha atores e gente fantasiada de animais, além de clipes divertidos e educacionais. Eu não quero dizer o nome do programa porque era realmente bom e essa história não é de forma alguma culpa deles. Vou chamá-lo de "M Show".
O M Show passava há anos e eu o assistia desde sempre. Eu sempre me sentava, logo depois da escola, com a minha irmã mais velha, Scarlett, e minha melhor amiga, Brandi, que morava na casa ao lado.
Era nosso ritual. Todos os dias nós nos sentávamos juntas - com potes de doces, se nossas mães deixassem, ou então maçãs e uvas - e, durante os intervalos, fofocávamos e discutíamos sobre todas as "importantes" questões nas nossas vidas.
E então, eu me lembro, foi numa Sexta-Feira quente de verão em que Scarlett achou, em uma das suas revistas, algo sobre uma competição. Eram perguntas sobre o programa e o primeiro lugar ganhava uma viagem pra Disney com os pais. Mas melhor que isso, todos os que acertassem todas as respostas se tornariam membros do Fã Clube do M Show. Aquele mesmo dia, depois de assistir o M Show, nós três sentamos no sofá e começamos a responder o quiz.
As perguntas eram bem difíceis; perguntavam detalhes de episódios velhos do programa. Sem a Scarlett, eu e Brandi nunca teríamos conseguido responder tudo.
Scarlett implorou à nossa mãe para que comprasse envelopes e selos, e então colocamos cada papel com as respostas em um envelope, com nossas informações de contato e endereço. Scarlett até nos falou pra mudarmos um pouco nossas respostas, para não nos desclassificarem por colar.
Mandamos as cartas e, então, todos os dias íamos correndo até a caixa de correio para ver se nosso kit do Fã Clube do M Show havia chegado. Quando os primeiros flocos de neve começaram a cair, nós paramos de checar a caixa de correio. Brandi ainda era apaixonada pelo show e assistia todos os dias, mas Scarlett tinha perdido o interesse. Quando Scarlett parou de assistir, eu também comecei a perder alguns episódios. A Brandi ainda vinha em casa, mas era a única assistindo. Eu sentava do seu lado e ficava olhando as revistas velhas da Scarlett.
Era o começo da primavera. Lembro que tinham tulipas no nosso jardim e minha mãe brigou comigo por arrancar duas pra decorar a mesa da cozinha. Mas logo depois da bronca, ela me deu um pequeno envelope quadrado com meu nome impresso. A parte de trás dizia "Bem-Vinda ao Fã Clube do M Show".
Não tinha muita coisa no envelope - só um pequeno folheto que me dava boas vindas ao clube e um pequeno cartão de identificação com meu nome, o logo do programa e, em letras pretas, escrito "Fã Clube do M Show" com a palavra "membro" escrita logo abaixo.
A Brandi recebeu seu envelope no mesmo dia. Ela brilhava de tanta felicidade. Scarlett ficou com um pouco de inveja no começo, mas seu envelope chegou dois dias depois.
Daí em diante, todas as Sextas-Feiras, recebíamos folhetos com informações do show, fotos, piadas e pequenas biografias dos personagens. De vez em quando, os folhetos também falavam para os membros divulgarem o show e ficar atento para a "Turnê do M Show".
De qualquer forma, deu certo: voltamos a amar o show. Desde aquele dia, quando eu coloquei a carteirinha de membro na minha bolsa, cheia de orgulho, não perdi um episódio sequer.
Então, lá pela metade de Junho, recebemos dois folhetos. O primeiro era o de sempre, com informações e fotos. Mas o segundo era um anúncio:
"O ônibus da turnê está na sua cidade - é sua chance de se tornar um Membro de Elite!"
O ônibus vinha para nossa cidade no Domingo seguinte. Nossas mães nos deixaram ir e, claro, ficamos mais do que animadas.
O folheto não apresentava muitas informações e isso foi bem antes de termos um computador em casa. O ônibus chegaria às 13h e os personagens principais estariam lá pra falar com todo mundo e jogar com a gente. Aqueles que participassem de pelo menos 4 jogos, virariam Membros de Elite, ganhando até um cartão dourado.
Aqueles nove dias esperando a Turnê do M Show foram, provavelmente, os mais longos da minha vida. Brandi, Scarlett e eu planejávamos todos os dias como seria - tiraríamos fotos com todos os personagens e brincaríamos muito com eles. Eu secretamente sonhava em ganhar da Scarlett no jogo de perguntas, onde nosso conhecimento sobre o programa seria testado.
No Sábado, a Scarlett foi para uma festa do pijama na casa de uma das suas amigas. Seus pais combinaram de trazê-la pra casa ao meio-dia do Domingo.
Lá pelas 12h30, Brandi veio correndo pra nossa casa. Bateu na porta, como sempre, e eu abri. Ela estava muito animada; a mãe dela tinha se oferecido pra acompanhar nós três e ela queria ir cedo pra não perder nada.
Minha mãe ligou pra casa da amiga da Scarlett, mas ninguém atendia o telefone. Ela disse que a Scarlett chegaria logo, cedo o suficiente pra chegarmos na hora.
Às 12h45, a mãe da Brandi apareceu pra saber de nós. Ela disse que deveríamos ir, pra não perdermos nada caso houvesse trânsito. Minha mãe disse para esperarmos pela Scarlett, mas Brandi deu um chilique: ela tinha medo de que não fosse conseguir abraçar todos os personagens se chegássemos tarde.
A mãe da Brendi decidiu levá-la. Eu queria ir junto - mas minha mãe disse que ia levar eu e minha irmã. Senti que estava sendo punida pelo atraso da Scarlett. Eu implorei, eu chorei. Nada. Brandi foi sozinha.
Scarlett chegou só às 13h40. Eu estava muito brava com ela, mas minha mãe disse que se eu fizesse cena, a gente não iria mais. Fiquei quieta.
Nós chegamos vinte minutos atrasadas no estacionamento no qual o ônibus iria parar. Dava pra ver a multidão de longe. Estacionamos o carro e fomos pra lá.
Perguntei pra minha mãe onde estavam os personagens do programa; ela disse que eles estavam logo depois da multidão.
Todos estavam com flyers da Turnê do M Show, mas parecia que a multidão era só de pais e mãe. Eles estavam amontoados, em meia-lua, no canto do estacionamento. Alguns pareciam preocupados, mas a maioria estava rindo e conversando.
Minha mãe viu a mãe da Brandi no meio das pessoas e fomos até ela. Ela estava preocupada.
Ela disse que o ônibus tinha passado lá, com todos os animais do M Show. Eles estavam num ônibus gigante com o logo do programa e distribuíram doces.
Um dos personagens explicou para os pais que eles tinham construído um set logo atrás da cidade, onde todos poderiam fazer pequenos filmes com os personagens. Eles iam levar todos até lá de ônibus.
Eles levaram as crianças primeira. Estavam todas tão animadas que poucos pais foram contra. Mesmo assim, três ou quatro pais ou mães foram junto e acalmaram o resto. O próximo ônibus devia chegar em poucos minutos, para levar todos os outros.
Quando ouvi isso, fiquei mais animada do que nunca.
Corri até a rua para olhar se ele já estava chegando, porque queria ser a primeira a entrar. Scarlett veio junto.
Não tinha dado muita bola para a expressão de preocupação da mãe da Brandi.
Não entendi por que a polícia chegou nem uma hora depois.
No episódio de M Show que passou na Segunda-Feira, um dos personagens veio ao palco e disse para chamarmos nossos pais para assistir o programa. Minha mãe já estava sentada comigo e com a Scarlett no sofá.
Ele disse que o M Show não tinha um fã clube.
Naquela semana os pais da Brandi choraram muito. Eu tinha certeza que a Brandi estava bem. Pensei que ela estava se divertindo tanto que não queria voltar.
Ela deve ter se divertido muito; ela nunca voltou.
A mãe da Brandi chorou mais ainda quando, naquela Sexta-Feira, chegou mais uma carta do Fã Clube do M Show. Tinha um cartão dourado de Membro de Elite.
O pacote também tinha uma fita de vídeo. Tinha só um minuto de duração. Era a Brandi no set do M Show. Ela estava com o mesmo vestido que estava usando naquele Domingo de manhã.
No vídeo, a Brandi estava sorrindo; um dos atores vestido de bicho estava do seu lado, quieto.
"Oi, mãe! Eu estou adorando!" ela disse. "Queria muito que você estivesse aqui."
E então ela ria. "É uma pena que os outros se atrasaram. Eles iam amar também!"




(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @NanisF)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Minha filha morreu no seu 6º aniversário. Um homem acaba de me dar um álbum com fotos de seu 7º.

Não consigo descrever como estou me sentindo nesse momento. Isso está tão longe do normal que tenho quase certeza de que estou louco.
Quase.

Minha esposa, Bea, morreu durante o parto. Ela era linda, engraçada, inteligente - teimosa. Uma mulher cuja risada era tão alta que sair para jantar em restaurantes era um desafio; cujo olhar era tão intenso que fazia minhas mãos tremerem. Eu a perdi enquanto dava a luz à nossa filha, Sam.
Claro, eu podia ter ressentimento da Sam, por ter me tirado a única coisa que havia sido minha de um jeito único. Por ter me tirado algo que era tão verdadeiro e puro. Mas eu não fiz isso. Eu sabia que Bea não iria querer nenhum ressentimento. Ela não iria querer que nossa única filha tivesse uma vida arruinada por ódio.
Mas isso não tem nada a ver com luto. Não tem nada a ver com o sentimento horrível de ter perdido para sempre algo que você amava. Isso é muito mais assustador.
Minha filha era alegre, sempre correndo e gritando, pulando e subindo nas coisas - fazendo bagunça até nas aulas na escola. Então, no seu aniversário de 6 anos,levá-la para o cinema com seus amigos era uma aventura que havia deixado-a tão animada que eu mal podia acompanhá-la enquanto ela corria por entre as pessoas na calçada. De vez em quando, ela virava pra trás, olhava para mim por entre aquele par de pessoas e gritava "Vem, pai!" num tom quase petulante. Não tinha como não amá-la.
Tentei alcançá-la, realmente tentei. Ela estava ocupada demais olhando pra mim quando começou a andar na rua, e o ônibus não teve tempo de parar. Um som aterrorizante e, de repente, tudo ficou mudo. Peguei seu corpo frágil em meus braços, entorpecido demais para chorar, dolorido demais para me mover. Tudo que eu conseguia sentir era o sangue quente manchando minha roupa. Estava num estado de choque tão grande, que a única coisa na qual eu conseguia era pensar era em como lavaria meus jeans depois. Soa horrível, eu sei, mas uma perda como essa acaba com tudo o que você tem e deixa apenas a capacidade de raciocinar que nos torna humanos e não animais.
A semana seguinte é um grande borrão em minha mente. Entre família e amigos oferecendo suas condolências e minhas crises de choro que começavam do nada e por qualquer coisa - o barulho da geladeira ou vozes rindo na TV -, eu não consigo me lembrar claramente de nenhum momento.
Eu fui ao seu funeral vestido completamente de preto. E não quero dizer apenas roupas - até minha alma estava negra. Eu não conseguia sentir ou pensar e o dia passou sem sentido, como um homem à beira da morte flutuando na água. Todos queriam falar da Sam, como ela era perfeita - como se eu não soubesse. Como se eu não tivesse noção do presente maravilhoso que minha própria filha era.
O homem se destacou dos outros, enquanto andava em minha direção e me estendia esse grande livro encapado com couro. Na hora, pensei que ele fosse o pai de algum dos amigos da Sam, me dando um álbum com fotos deles juntos. Ou talvez eu estivesse entorpecido demais para perceber suas mãos extremamente geladas ou o fato de que ele sequer mencionou o nome da minha filha.
Por um mês inteiro, me senti perdido. Eu bebia e ficava no nosso apartamento sozinho, assistindo vídeos antigos - vazio demais até pra chorar. Só quando minha irmã chegou, quando ela segurou minha mão e conversou comigo, só aí eu comecei a sair um pouco da minha concha. Ela ficava sentada me escutando dizer as maiores insanidades e, gentilmente, foi me tirando de minha depressão. Não completamente, é claro, mas o suficiente para que eu retornasse aos poucos para a vida.
Foi quando eu abri o livro. Eu decidi lembrar de Sam por toda a alegria que ela me dava e estava pronto para pensar nela e em sua curta vida sem me sentir deprimido.
Abri a primeira página. Era basicamente uma pasta, cheia de fotos Polaroid da minha filha enquanto ela crescia. Franzi o cenho. Elas haviam sido tiradas de uma distância considerável e estavam borradas - eu estava em algumas delas.
Comecei a me sentir doente, mas esperei que as fotos seguintes pudessem me dar algum tipo de explicação. Comecei a inventar para mim mesmo, mil desculpas para explicar como esse homem havia tirado essas fotos, desesperado para ver os momentos da vida da minha filha sem essa sensação péssima. As fotos chegavam cada vez mais perto conforme seus aniversários. Eu pude ver o dia no qual lhe dei aquela pequena bicicleta em seu aniversário de 5 anos, e os joelhos ralados que vieram como consequência do presente.
E então havia uma foto dela, logo antes de irmos ao cinema em seu aniversário de 6 anos - eu reconheci facilmente o casaco rosa que ela insistiu em usar, e minhas mãos nos seus ombros. Não havia fotos do acidente.
No entanto, sua vida continuou dentro desse livro. Seu sétimo aniversário mostrava uma foto de nós dois no jardim, cobertos de tinta - com uma grande tela no chão, toda suja também. Seu sétimo aniversário.
Seu sétimo aniversário.
Quando percebi o que estava vendo naquelas páginas, fechei o livro. Permaneci sentado na mesa da cozinha, olhando para a capa de couro. Deve ser algum sádico mexendo com Photoshop, eu pensei. Tinha a esperança de que alguém tivesse tirado horas de seu dia para me pregar essa peça horrível. Digo que tinha esperança, porque, na verdade, eu não conseguia acreditar na outra explicação. Mesmo que ela existisse.
Rangendo meus dentes, decidi que não tinha nada a perder e continuei a ver o livro.
É impossível explicar o que senti enquanto lia com atenção, ouvindo o som de cada página virando. Eu posso tentar, mas nada pode prepará-lo para algo desse tipo.
A vida dela continuou... Quando ela perdeu seus dentes de leite, seu primeiro dia no ensino fundamental... O ritmo em que eu virava as páginas era cada vez mais frenético, até que comecei a perceber algo. O fotógrafo chegava cada vez mais perto. Mais perto dela. A medida que ela envelhecia - não em todas as fotos, mas uma característica geral - o fotógrafo se aproximava cada vez mais. Cada vez mais ousado, talvez.
Ela era linda. Maravilhosa. Quando adolescente, parecia muito com sua mãe, os cachos em seus cabelos e o sorriso. Eu envelheci também, mas as fotos passaram a me incluir cada vez menos.
Seu aniversário de 16 anos foi estranho. Seu grupo de amigos, sentados ao ar livre, bebendo em pequenos copos de plástico num piquenique. Mas havia alguém no fundo. Perto dos arbustos no parque onde essas fotos foram tiradas, havia uma figura escura. Ele teria sido imperceptível, não fosse sua sombra na grama.
Encostei-me na cabeça por um momento e suspirei. Isso era muito estranho. Estive tão concentrado vendo minha garotinha crescer que não pensei em como isso terminaria. Momentos como esse são tão surreais que, às vezes, você se retira deles. Era como se eu estivesse vendo à mim mesmo lendo aquele livro, de fora, como um sonho ou um programa de televisão.
Continuei.
A figura negra começou a aparecer cada vez mais nas fotos. Eu quase podia ver suas feições. Sua presença era ameaçadora e, a cada página virada, eu torcia para que ele desaparecesse. No entanto, quanto mais próximo do seu aniversário de 18 anos (cada aniversário era marcado por "outro ano" escrito na Polaroid), ela aparecia cada vez mais em lugares que eu já não reconhecia.
As fotos, agora, mostravam-na numa casa com poucas luzes. Seu rosto estava contorcido pelo medo e ela aparecia em diversas poses estranhas. Às vezes ela estava vestida como uma rainha antiga ou até como uma empregada, esfregando o chão. Aquela figura estava bem mais perto agora. Suas pernas ou seu braço apareciam em todas as fotos. Não importa a roupa que ela estava vestido, em todas as fotos seu rosto mostrava uma expressão de desespero e dor. Isso me matava. Havia machucados em seu rosto. Ela estava magra, doente até.
Eu não podia continuar.
Isso era doentio. Muito doentio.
Minha garotinha!
Eu decidi parar.
A última foto que olhei, antes de fechar o livro e jurar que nunca, nunca mais iria vê-lo, era uma foto de seu aniversário de 18 anos. Havia escrito "finalmente!!", em garranchos, na Polaroid.
Ela estava olhando diretamente para a câmera, chorando. Estava ajoelhada, usando um vestido social, preto - com uma maçã em sua boca e seus braços amarrados para trás. Sua maquiagem estava escorrendo junto às lágrimas. Era como se ela estivesse me implorando para ajudá-la.
Mas eu não conseguia.
Fechei o livro e saí da cozinha, meu corpo todo se contorcia enquanto eu chorava.
Eu não podia ligar para a polícia, obviamente. Ela estava morta.

O que realmente me deixa acordado à noite, não são as fotos que eu vi...
É o fato de que ainda haviam muitas páginas pela frente.

(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @NanisF)

630-296-7536

Tenho certeza de que todos vocês estão acostumados com essas histórias que são um pedido por ajuda. Socorro, me ajude, bla bla bla... Não vou incomodá-los com outra. Mesmo se eu quisesse ajuda, vocês não poderiam me dar... Pedir ajuda é inútil.
Por quê?
Porque você não é um membro.
E eu só queria não ser também.
Tudo começou de uma maneira inocente, na verdade. Com um telefonema.
Eu estava acordado há algumas horas, desempacotando as coisas e limpando, esperando que o encanador ligasse. Eu havia acabado de me mudar para uma pequena casa e os empreiteiros foderam com tudo. Por isso, agora tenho a maravilhosa tarefa de ligar para pessoas competentes que possam resolver o que os empreiteiros originais estragaram.
O telefone tocou às 12h06.
Nada mal, eu pensei. Normalmente os encanadores não dão sinal de vida até às 17h.
Assim que peguei o telefone, mal tive a chance de dizer alô antes que uma mulher na linha me dissesse "Por favor, aguarde pelo próximo atendente disponível".
Sentei no balcão da cozinha, um dos poucos lugares que não estava ocupado por caixas. Meus ouvidos foram inundados por uma música de elevador. Estava quase cochilando quando o som parou e algumas notas de piano, agudas demais para encaixarem com a música que tocava anteriormente, soaram altas.
Alguém começou a falar do outro lado.
"Bem-vindo às Indústrias Boothworld. Meu nome é Samantha e eu serei sua atendente hoje. Nome?"
Eu não sabia o que dizer à atendente, então lhe disse meu nome.
"Senhor, nós sabemos quem você é. Eu sou sua atendente. Por favor, me dê um nome para acessar."
"Eu não entendo", respondi confuso.
"Pode ser qualquer pessoa, senhor. Só precisamos de um nome."
"Hm... Okay", eu disse. Inventei um nome. "Harold Withers."
"Senhor, como sua atendente, preciso lhe dizer que nomes fictícios ou de pessoas que você não conhece não podem ser usados."
"Usados para quê?" eu perguntei. Como ela sabia que eu tinha inventado aquele nome? Essa situação toda parecia um trote, mas quase ninguém sabia meu novo número de telefone.
"Remodelação."
"Remodelação? Você é o encanador?" eu perguntei.
"Bem-vindo às Indústrias Boothworld. Meu nome é Samantha e eu serei sua atendente hoje. Nome?"
Tomei isso como um sim e dei à eles o nome de uma ex-namorada. "Jessica Goodwin."

Eu podia ouvir o barulho do teclado do outro lado da linha. Parecia que aquela mulher estava batendo no teclado com os punhos. Depois de algum tempo desse barulho, ela retornou.
"Jessica Goodwin", ela disse. "A remodelação está marcada para 21 de Agosto de 2015. Gostaria de remarcar?"
Fiquei completamente quieto. Não podia acreditar naquilo. Alguém com certeza estava tentando me passar um trote.
"Quem é? É você, Jessica? Você tá tentando me passar um trote?" perguntei.
A mulher não respondeu por um longo tempo e eu pensei que, quem quer que fosse do outro lado da linha, estava segurando o riso.
"Olá?"
"Sim ou não, senhor?" a mulher perguntou de volta.
"Sim?" eu respondi, não entendo direito o que a mulher estava perguntando.
"Eu tenho um horário disponível na Terça-Feira. Tudo bem para o senhor?"
Nessa hora eu pensei que estava ficando louco e que realmente era a empresa que havia contratado para enviar o encanador.
"E hoje? Você tem algum horário livre para hoje?"
"Normalmente não conseguimos remarcar remodelações para horários tão próximos, mas hoje tivemos um cancelamente. Às 15h está bom para você?"
"Às 15h está ótimo", respondi.
"Às 15h então. Você gostaria de uma ligação cortesia?"
"Claro."
"Ótimo. Nós, das Indústrias Boothworld, agradecemos e te damos boas vindas ao clube. Tenha um bom dia."
Aquelas estranhas notas de piano tocaram de novo e a linha caiu. Rolei os olhos e voltei a desempacotar as coisas.
Meu telefone tocou às 15h daquela tarde.

"Alô?"
"Senhor, quem fala é Samantha das Indústrias Boothworld novamente. Sua ligação cortesia começa agora."
"Como ass-" eu comecei a dizer, mas fui cortado por um barulho muito agudo do outro lado da linha. E então eu ouvi a voz de Jessica.
"Por que você está fazendo isso?" Jessica perguntou. Dava pra perceber que ela estava chorando.
"Jessica?" perguntei.
"Senhor", a atendente falou "Ela não pode te ouvir. Essa é uma ligação cortesia. O serviço já foi completado."
"Por favor" Jessica implorava "Por favor, não faça isso. Eu faço qualquer coisa. Eu v-" Jessica começou a engasgar e tussir, e eu podia ouvir ela se debatendo. Até que esse barulho todo parou e alguém voltou a falar do outro lado da linha.
"O serviço agendado terminou," uma voz masculina disse. "Nós das Indúsitras Boothworld agradecemos e te damos boas vidas ao clube. Tenha um ótimo dia."
"Senhor?" a atendente voltou à linha "Está satisfeito com o serviço?"
Fiquei quieto por um longo tempo, sentindo gotas de suor frio descerem por minha coluna vertebral. Jessica era minha ex namorada porque eu havia pego ela e meu melhor amigo transando numa festa, no colegial.
Eu sorri e sussurrei "Foi perfeito."
"Maravilhoso!" a atendente disse. "Nós das Indústrias Boothworld fazemos nosso melhor. Gostaria de marcar outro serviço?"
Enquanto eu encarava a goteira na porta da máquina de lavar, sorri mais ainda.
"Sim", eu disse, "gostaria de marcar outro serviço."
"Nome?"

"Dan. Eu não tenho o sobrenome. Ele é empreiteiro."
"Dan Arencibia. 13 de Julho de 2032. Gostaria de remarcar?"
"Sim" respondi.
"Na Quarta-Feira está bom pra você?"
"Você não disse que tinha um horário disponível na Terça?" perguntei.
"Eu tinha, mas infelizmente esse horário foi preenchido por outro membro. Quarta-Feira não funciona para você?"
"Não" respondi. "Tenho uma entrevista de emprego nesse dia. E na Quinta-Feira?"
"Infelizmente, na Quinta-Feira não será possível. Você está marcado para remodelação na Quinta-Feira à noite."
"O quê?" perguntei em choque.
Ela repetiu exatamente a mesma coisa.
"Tem como remarcar minha remodelação?" perguntei.
"É claro que tem, senhor" a mulher respondeu. Senti que ela estava sorrindo do outro lado da linha. "Sempre tem um jeito."
Esperei que ela me dissesse como. Ela ficou quieta.
"COMO?" eu perguntei, quase em desespero.
"As Indústrias Boothworld sempre estão à procura de novos membros. Nós somos, é claro, uma empresa que só aceita membros através de convite. Infelizmente, nosso número decaiu nos últimos anos. Problemas econômicos, guerras, questões políticas... Gostaríamos que o senhor, a fim de evitar sua remodelação, ajudasse-nos a conseguir muitos novos membros."
A luz no fim do túnel, pensei.
"De quantos vocês precisam?" perguntei.
"Mil."
Eu engasguei. "Mil membros?"
"Sim, senhor. Caso contrário, teremos que manter sua remodelação. Devemos informar que o membro que marcou esse serviço pediu por uma ligação cortesia."
Tudo ficou paralisado nesse momento. Toda a minha vida eu só existi, sem realmente fazer nada, sem querer causar impactos ou chamar atenção.
Minha boca estava seca. Sempre pensei que as pessoas escreviam essa sensação em livros só para serem dramáticas. Não é assim.
"Eu vou conseguir mil membros" sussurrei.
"Nós das Indústrias Boothworld agradecemos e te damos boas vindas ao clube. Tenha um ótimo dia."
A ligação terminou.
Coloquei o telefone no gancho e fiquei encarando aquele ponto por um longo tempo. Estou marcado apra ser remodelado na Quarta-Feira à noite e, em algum lugar, alguém vai receber uma ligação para ouvir meus últimos suspiros, caso eu não consiga mil membros para se juntarem às Indústrias Boothworld.
Engraçado. Sempre quis ser parte de um clube de elite. Skull & Bones, Nova Ordem Mundial... Não sei exatamente como entrei, mas agora sou um membro. E tenho até Quarta-Feira para aproveitar.
Como eu disse no começo: mesmo que eu quisesse sua ajuda, você não poderia me ajudar, já que não é um membro.
Você precisa ser convidado.
E eu estou te convidando.
Você pode me ajudar.
Ligue para 630-296-7536.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Relâmpago

Nós havíamos acabado de nos mudar para uma pequena casa no subúrbio. Era como um bairro de uma história - vizinhos quietos e amigáveis, cercas brancas... a coisa toda. Não preciso dizer que isso deveria ser um novo começo pra mim, um novo pai solteiro, e para meu filho de três anos de idade. Era um tempo de seguir adiante depois do último ano cheio de drama e estresse.

Eu via a tempestade como uma metáfora para esse novo começo: um último show antes que toda a sujeira do passado fosse lavada. O meu filho adorou, de qualquer maneira, mesmo sem energia na casa. Foi a primeira grande tempestade que ele viu. Flashes de relâmpagos enchiam os cômodos vazios da casa, formando assustadoras sombras por detrás das caixas. Ele pulou e gritou ao ouvir o barulho do trovão. Já havia passado da sua hora de dormir quando ele conseguiu se acalmar o suficiente para adormecer.

Na manhã seguinte, vi-o acordado na cama, sorrindo. "Eu vi o relâmpago na minha janela!" ele disse com orgulho.

Alguns dias depois, ele me disse a mesma coisa. "Bobeira," eu disse "não teve uma tempestade ontem à noite, você estava só sonhando!" "Ah..." Ele pareceu levemente desapontado. Baguncei seu cabelo e falei para que não se preocupasse, pois provavelmente haveria uma tempestade em breve.

E então aquilo se tornou frequente. Ele me dizia ter assistido os relâmpagos do lado de fora de sua janela pelo menos duas vezes na semana, mesmo que não acontecessem tempestade. Sonhos recorrentes daquela primeira tempestade, pensei.

Olhando para trás, é fácil sentir ódio de mim mesmo. Todos me garantem que não havia nada que eu pudesse fazer, não havia como eu saber. Mas eu devia ser o guardião do meu filho e essas palavras de conforto são inúteis. Eu constantemente revivo aquela manhã: faço meu café, coloco leite no meu cereal e pego o jornal para ler sobre o pedófilo que a polícia local havia prendido. Primeira página. Aparentemente esse cara escolhia um alvo bem jovem (normalmente um garoto), vigiava do lado de sua casa por um tempo, tirando fotos com flash deles pela janela enquanto eles dormiam. Às vezes ele fazia mais. Meu estômago revirava enquanto fazia a conexão.

Na época, me parecia algo da imaginação de uma criança. Pensando naquela época, é a coisa mais assustadora que eu já ouvi. Uma semana antes daquele pedófilo ser pego, meu filho veio até mim em seus pijamas. "Adivinha?" ele perguntou.

"O que?"

"Não tem mais relâmpagos na minha janela!"

Entrei na brincadeira. "Ah, isso é bom! Eles foram embora então, é?"

"Não! Agora tá no meu armário!"

Ainda tenho que ver as fotos coletadas pela polícia.

(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @NanisF)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Atenção

     Leia isso em alto e bom tom: "Olá, Molly."

     Se você leu isso em voz alta, como eu disse, está à salvo.

     Se você leu isso mentalmente... Molly está à salvo também.

     Na sua mente.



(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @nanisf)

Spam

     O carro dos meus pais saiu da garagem e eu fui direto para o meu quarto. Meu laptop estava em cima da escrivaninha e eu o liguei.

19h30
   
     Entrei no Facebook mas logo fiquei entediada porque não tinha ninguém com quem eu gostaria de conversar online. Lembrei que um amigo havia me falado sobre um site outro dia. Ele me disse que muitas pessoas entram nesse site e compartilham um negócio chamado "creepypasta"? Bom, decidi tentar. Entrei no site e a primeira coisa que vi foi uma citação bem esquisita no topo da página.

20h00

    Enquanto ainda fuçava pelo site, encontrei histórias na categoria NSFW* e decidi ler algumas delas. Iam de histórias sobre namoros que deram errado, um episódio perdido de Bob Esponja, uma musiquinha estranha de video game que fez meus ouvidos doerem e algo sobre um homem degenerado que queria que sua mãe o molestasse toda hora até coisas sobre as quais eu já havia ouvido falar, como Jeff The Killer, Slenderman, o Rake...

     Decidi abrir uma conta e conhecer mais do site. Coloquei um username... 'Lily!' e o site pediu por e-mail. Coloquei um que eu sequer olhava. Quando coloquei todas as minhas informações e já estava animada pra começar a usar, ele me pediu que checasse o e-mail de confirmação antes. Merda.

20h46

     Na minha Caixa de Entrada, não conseguia achar o e-mail da Wikia, então continuei passado pela lista de e-mails até descobrir que tinha ido pra caixa de spam. Fui até a pasta cheia de e-mails me dizendo que havia ganhado algo ou que "encontraria o amor" num site de relacionamentos religioso até que finalmente achei o e-mail.

     Mas outro e-mail chamou minha atenção.

     Estava na caixa de spam, mas o título era: Um Jeito Assustador de Terminar um Namoro.

21h00

     A curiosidade falou mais alto, então cliquei... Mas logo comecei a rir porque vi que era apenas mais uma daquelas correntes. Tinha diversos erros gramaticais e envolvia um namorado matando sua ex ou algo do tipo.

UM JEITO ASSUSTADOR DE TERMINAR UM NAMORO!

NÃO PARE de ler isso ou algo muito ruim irá acontecer!

sábado, 14 de dezembro de 2013

O Desaparecimento de Ashley, KANSAS


     Na noite de 16 de Agosto de 1952, a pequena cidade de Ashley, no estado do Kansas, parou de existir. Às 3h28 AM de 17 de Agosto de 1952 um terremoto de magnitude 7.9 foi medido pela Associação Americana de Estudos Geológicos*. O terremoto em si foi sentido pelo estado e por grande parte do meio-oeste. Determinou-se que o epicentro foi bem embaixo de Ashley, Kansas.

     Quando a equipe de segurança do Estado chegou ao que deveria ser os arredores da comunidade agrícola, acharam apenas uma enorme e ardente fissura de cerca de 1.000 metros de comprimento e 500 de largura. A profundidade da fissura jamais foi determinada.

     Depois de doze dias, a busca pelos 679 residentes da cidade de Ashley, que estava sendo realizada em todo o estado, foi cancelada pelo Governo do Estado do Kansas, às 9h15 PM de 29 de Agosto, 1952. Todos os 679 residentes foram dados como mortos. Às 2h27 AM de 30 de Agosto de 1952, um terremoto de magnitude 7.5 foi medido pela Associação Americana de Estudos Geológicos. O epicentro foi, novamente, o local onde ficava a cidade de Ashley. Quando as autoridades investigaram a área às 5h32 AM, reportaram que a fissura na terra havia se fechado.

     Nos oito dias que antecederam o desaparecimento da cidade e de seus 679 residentes, acontecimentos bizarros e inexplicáveis foram reportados por dezenas de moradores da cidade de Ashley e das cidades e vilas aos arredores.

     Na noite de 8 de Agosto de 1952, às 7h13 PM, um residente chamado Gabriel Johnathan reportou a visão de um objeto não identificado no céu de Ashley. A cidade em si, não tendo nenhuma organização policial de verdade, recorreu à estação policial da cidade vizinha de Hays. Gabriel reportou o que aprecia ser uma "negra e pequena abertura no céu". Nos 15 minutos seguintes, a polícia de Hays foi sobrecarregada com dúzias de ligações reportando o mesmo fenômeno. O fenômeno não foi reportado por nenhuma outra comunidade próxima. Decidiu-se mandar uma tropa para Ashley para investigar o problema na manhã seguinte.

     Às 7h54 AM da manhã de 9 de Agosto, 1952, o oficial da polícia de Hays, Allan Mace, mandou um sinal de rádio para a estação de Polícia de Hays. Ele reportou que, mesmo tendo seguido a única estrada que levava à Ashley, havia se perdido. De acordo com seu informe, a estrada "continuava seu caminho normal mas, de alguma forma, voltava para Hays". O oficial Mace ainda disse que a rua não possuía curvas ou saídas. Às 9h15 AM, sete dos dez carros policiais foram mandados para investigar a situação e todos os membros do time chegaram à mesma conclusão. A única estrada em direção à Ashley passou a ter como fim, a cidade de Hays. Telefonemas continuavam a sobrecarregar a estação policial de Hays, todos reportando que a abertura negra no céu continuava a crescer. Todos foram orientados a permanecer em casa e não sair de lá a não ser que fosse completamente necessário. Às 8h17 PM, a Sra. Elaine Kantor reportou o desaparecimento de seus vizinhos Sr. e Sra. Milton, e seus dois filhos, Jeffery e Brooke. De acordo com o telefonema da Sra. Kantor, os Miltons haviam tentado deixar a cidade com o carro da família mais cedo naquele dia. Eles nunca retornaram. Jamais foi reportado nenhum carro ou pessoa passando de Ashley para Hays ou qualquer outra cidade próxima.

     Às 7h38 AM da manhã de 10 de Agosto de 1952, telefonemas de Ashley para a estação policial de Hays reportavam que a cidade estava em completa escuridão. O Sol não havia nascido. Às 10h15 AM, por pedido do corpo policial de Hays, um helicóptero de Topeka, Kansas, voou sobre a região de Ashley. A cidade não foi vista de cima.

     Às 12h43 PM da tarde de 11 de Agosto, 1952, a srta. Phoebe Danielewski ligou para a estação policial de Hays. Ela reportou que sua filha, Erica, estava conversando com o pai, falecido três anos antes em uma acidente de carro. Para preocupá-la mais, a srta. Danielewski reportou que Erica ameaçava ir para fora para "juntar-se à eles". No decorrer das doze horas seguintes, foram registradas 329 ligações descrevendo fenômenos similares com as crianças da cidade.

     Na manhã seguinte, 12 de Agosto de 1952, a situação ficou terrível. No meio da noite, todas as 217 crianças de Ashley desapareceram. Foram registrada 421 ligações telefônicas para o departamento policial de Hays. Incapaz de ajudar, o corpo policial de Hays instruiu a população para permanecer em casa e evitar quaisquer tentativas de achar as crianças desaparecidas.


Os Observadores

(Uma das minhas favoritas. É bastante comprida, mas vale muito à pena. Demorou 2 dias pra traduzir, por favor, creditem se copiarem. :] )

   
      Meu nome é Andrew Erics. Eu morava em uma cidade chamada Nova Iorque. Minha mãe se chama Terrie Erics. Ela está na lista telefônica. Se você está lendo isso e conhece a cidade, ache-a. Não mostre isso pra ela, mas diga que a amo e que estou tentando ir para casa. Por favor.
   
     Tudo começou quando, por volta dos meus vinte e cinco anos, decidi que era hora de parar de levar minha mochila para o trabalho. Vou parecer mais maduro, pensei, se não estiver carregando uma bolsa cheia de livros para todos os lugares que eu for, como um estudante do ensino médio. Claro que isso significava que eu pararia de ler no metrô durante as manhãs e as tardes, considerando que eu realmente não conseguiria fazer um livro caber no bolso. Uma pasta seria demais, já que eu trabalhava em uma fábrica, e aquelas bolsas de carteiro sempre pareceram... Frutinhas demais pra mim. Muito bolsinha de mulher para o meu gosto.

     Eu tinha um mp3 player, o que ajudou a passar o tempo por alguns meses, mas quando quebrou - desligava sozinho no fim de todas as músicas caso eu não passasse para a próxima manualmente - eu desisti disso também. Então todas as manhãs eu sentava no metrô por 30 longos minutos, com nada para fazer além de olhar para os outros passageiros. Eu era levemente tímido e não gostava de ser "pego no ato", então eu fazia tudo isso sorrateiramente. Interessantemente, descobri que não era a única pessoa que ficava desconfortável em locais públicos.

    As pessoas disfarçavam de diversas maneiras, mas eu aprendi a ver através delas. Eu as dividia em categorias mentalmente. Havia os inquietos, que não conseguiam ficar confortáveis de forma alguma, constantemente movendo as mãos e seus pertences, afastando e aproximando as pernas do assento toda hora. Eles eram os desconfortáveis, claramente. Depois deles, havia os que fingiam dormir... Tomavam seus assentos e fechavam os olhos praticamente no mesmo segundo. A maioria não dormia de verdade. Os que dormiam de verdade se mexiam mais, acordando bruscamente em algumas paradas ou depois de barulhos altos. Os mentirosos se mantinham parados, de olhos fechados, do momento que se sentavam até chegarem à sua estação. E então havia os viciados em mp3 players, as pessoas com laptops, os grupos que conversavam alto demais... Os viciados em celular eram realmente populares ou completamente incapazes de calar a boca por mais de dois minutos.

     Ao passo que meu passatempo de observar as pessoas ameaçava tornar-se extremamente entendiante, achei meu primeiro "incômodo". Um homem com aparência de meia idade, cabelos castanhos, altura e peso médios, vestido casualmente. Estranhamente, ele parecia normal demais. Ele não tinha nenhuma característica marcante, nenhuma mania, como se ele tivesse sido fabricado para desaparecer na multidão. Isso foi exatamente o que me chamou a atenção - minha intenção era ver como as pessoas se comportavam no metrô e ele não fazia absolutamente nada. Nem sequer reagia. Era como ver alguém em frente à televisão, assistindo um documentário sobre peixes. Não estão animados, concentrados, mas não estão olhando para os lados também. Presentes, mas só fisicamente.

     Ele estava no metrô durante as tardes. Fazia mais de mês que eu estava nessa de observar as pessoas antes que eu me interessasse por ele, mesmo porque eu não pegava o mesmo metrô todos os dias, nem sentava no mesmo carro quando o fazia. Eu o vi pela primeira vez, acredito, em uma Segunda-Feira e pela segunda vez na Quinta-Feira da mesma semana. Ele obviamente sempre pegava o mesmo metrô e sentava no mesmo carro - até no mesmo banco. "TOC?" eu pensei na época. Considerando que ele havia me deixado muito intrigado na primeira vez que o vi, passei a prestar mais atenção a partir da segunda. Francamente, ele era absolutamente inquietante. Ele não fazia nada. Apenas sentava lá, sem expressão alguma, corpo reto não importava o que acontecesse. Uma mulher com uma criança que chorava sentou atrás dele e, mesmo assim, nada. Ele nem sequer virou o rosto ou fez uma cara de incômodo. E a criança chorava alto pra caralho.

     Quando o metrô chegou na minha estação, me senti enjoado e, quando saí do vagão, minhas mãos tremiam como se eu estivesse em uma crise de abstinência de nicotina. Algo estava errado muito errado com aquele homem. Ele era, pensei, um tipo bizarro. Um sociopata, talvez, um daqueles cara super quietos que tem dúzias de cabeças no seu freezer... A primeira vítima havia sido a própria mãe.

    Peguei a mim mesma vadiando pela cidade durante a tarde depois do trabalho, parando nas lojas do shopping próximo ao metrô mesmo quando eu realmente não tinha intenção de comprar algo. Por umas duas semanas, evitei pegar aquele metrô e, quando me via parado na plataforma enquanto o trem chegava, certificava-me de entrar no vagão mais afastado o possível daquele em que ele normalmente ia.

     E então, numa outra manhã, vi outra pessoa que fez com que meu alarme disparasse.

    Uma mulher, tão comum quanto ele, tão fora do lugar como ele. O momento em que eu a reconheci, percebi mais tarde, foi o início da minha obsessão. Essa coisa de observar as pessoas, que havia começado como um passatempo para me livrar do tédio, virou praticamente uma religião pra mim. Eu não conseguia entrar em um metrô ou ônibus sem examinar minuciosamente todos, ticando mentalmente os requisitos de uma lista feita na minha própria cabeça. Roupas lisas de cores simples, sem marcas? Positivo. Sem expressões, sem olhares casuais para fora da janela ou para outros passageiros? Positivo. Sem pastas, bolsas ou acessórios? Positivo. Positivo, positivo, positivo! Nós temos mais um! Comecei a chamá-los de Estranhos.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Branco e Vermelho

     Um homem entrou em um hotel e foi até a recepção para realizar o check-in. A recepcionista deu à ele sua chave e disse que, no caminho para seu quarto, havia uma porta trancada, sem identificação numeral, e que não era permitida a entrada. Ela explicou que era um quarto usado como despensa e estava fora dos limites. Ela o lembrou disso diversas vezes antes que o deixasse ir para o andar e cima. Ele, então, seguiu as as instruções e foi direto para o seu quarto e então para a cama.

     No entanto, a insistência da mulher aguçou sua curiosidade, então na noite seguinte ele andou pelo corredor até a porta sem número e tentou virar a maçaneta. Com certeza estava fechada. Ele ajoelhou e olhou pela fechadura. Uma brisa gélida passou, esfriando seu rosto. O que ele viu foi um quarto como o seu e, no canto, uma mulher cuja pele era extremamente pálida. Ela estava com a cabeça inclinada contra a parede, virada de costas para a porta. Ele olhou confuso por um tempo. Será que era uma celebridade? A filha do dono do hotel? Ele quase bateu na porta de tanta curiosidade, mas decidiu que era melhor não.

     Enquanto ele ainda olhava, a mulher virou-se bruscamente. Ele pulou para longe da porta, esperando que ela não tivesse suspeitado de alguém a espionando. Levantou-se e andou de volta ao seu quarto. No dia seguinte, ele andou até a porta novamente e olhou pelo buraco da fechadura. Dessa vez, tudo o que ele viu foi a cor vermelha. Não pode distinguir nada além da cor. Talvez aqueles hospedados no quarto tenham bloqueado a fechadura com um pano vermelho, suspeitando de alguém que pudesse estar espionando-os. Sentiu-se envergonhado de ter deixado a mulher inconfortável àquele ponto e esperou que ela não reclamasse para a mulher da recepção.

     Nesse ponto, ele decidiu perguntar à recepcionista por mais informações. Ela suspirou e perguntou "Você olhou pela fechadura?". Ele confirmou e a moça continuou. "Bom, é melhor que eu te conte toda a história do que aconteceu naquele quarto... Há muito tempo, um homem assassinou sua esposa lá e, até hoje, achamos que aqueles que ficam hospedados lá se sentem muito desconfortáveis. O curioso é que essas pessoas não pareciam comuns... Eles eram extremamente brancos, exceto pelos olhos... Eles eram vermelhos."



(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @NanisF)