sábado, 14 de dezembro de 2013

Os Observadores

(Uma das minhas favoritas. É bastante comprida, mas vale muito à pena. Demorou 2 dias pra traduzir, por favor, creditem se copiarem. :] )

   
      Meu nome é Andrew Erics. Eu morava em uma cidade chamada Nova Iorque. Minha mãe se chama Terrie Erics. Ela está na lista telefônica. Se você está lendo isso e conhece a cidade, ache-a. Não mostre isso pra ela, mas diga que a amo e que estou tentando ir para casa. Por favor.
   
     Tudo começou quando, por volta dos meus vinte e cinco anos, decidi que era hora de parar de levar minha mochila para o trabalho. Vou parecer mais maduro, pensei, se não estiver carregando uma bolsa cheia de livros para todos os lugares que eu for, como um estudante do ensino médio. Claro que isso significava que eu pararia de ler no metrô durante as manhãs e as tardes, considerando que eu realmente não conseguiria fazer um livro caber no bolso. Uma pasta seria demais, já que eu trabalhava em uma fábrica, e aquelas bolsas de carteiro sempre pareceram... Frutinhas demais pra mim. Muito bolsinha de mulher para o meu gosto.

     Eu tinha um mp3 player, o que ajudou a passar o tempo por alguns meses, mas quando quebrou - desligava sozinho no fim de todas as músicas caso eu não passasse para a próxima manualmente - eu desisti disso também. Então todas as manhãs eu sentava no metrô por 30 longos minutos, com nada para fazer além de olhar para os outros passageiros. Eu era levemente tímido e não gostava de ser "pego no ato", então eu fazia tudo isso sorrateiramente. Interessantemente, descobri que não era a única pessoa que ficava desconfortável em locais públicos.

    As pessoas disfarçavam de diversas maneiras, mas eu aprendi a ver através delas. Eu as dividia em categorias mentalmente. Havia os inquietos, que não conseguiam ficar confortáveis de forma alguma, constantemente movendo as mãos e seus pertences, afastando e aproximando as pernas do assento toda hora. Eles eram os desconfortáveis, claramente. Depois deles, havia os que fingiam dormir... Tomavam seus assentos e fechavam os olhos praticamente no mesmo segundo. A maioria não dormia de verdade. Os que dormiam de verdade se mexiam mais, acordando bruscamente em algumas paradas ou depois de barulhos altos. Os mentirosos se mantinham parados, de olhos fechados, do momento que se sentavam até chegarem à sua estação. E então havia os viciados em mp3 players, as pessoas com laptops, os grupos que conversavam alto demais... Os viciados em celular eram realmente populares ou completamente incapazes de calar a boca por mais de dois minutos.

     Ao passo que meu passatempo de observar as pessoas ameaçava tornar-se extremamente entendiante, achei meu primeiro "incômodo". Um homem com aparência de meia idade, cabelos castanhos, altura e peso médios, vestido casualmente. Estranhamente, ele parecia normal demais. Ele não tinha nenhuma característica marcante, nenhuma mania, como se ele tivesse sido fabricado para desaparecer na multidão. Isso foi exatamente o que me chamou a atenção - minha intenção era ver como as pessoas se comportavam no metrô e ele não fazia absolutamente nada. Nem sequer reagia. Era como ver alguém em frente à televisão, assistindo um documentário sobre peixes. Não estão animados, concentrados, mas não estão olhando para os lados também. Presentes, mas só fisicamente.

     Ele estava no metrô durante as tardes. Fazia mais de mês que eu estava nessa de observar as pessoas antes que eu me interessasse por ele, mesmo porque eu não pegava o mesmo metrô todos os dias, nem sentava no mesmo carro quando o fazia. Eu o vi pela primeira vez, acredito, em uma Segunda-Feira e pela segunda vez na Quinta-Feira da mesma semana. Ele obviamente sempre pegava o mesmo metrô e sentava no mesmo carro - até no mesmo banco. "TOC?" eu pensei na época. Considerando que ele havia me deixado muito intrigado na primeira vez que o vi, passei a prestar mais atenção a partir da segunda. Francamente, ele era absolutamente inquietante. Ele não fazia nada. Apenas sentava lá, sem expressão alguma, corpo reto não importava o que acontecesse. Uma mulher com uma criança que chorava sentou atrás dele e, mesmo assim, nada. Ele nem sequer virou o rosto ou fez uma cara de incômodo. E a criança chorava alto pra caralho.

     Quando o metrô chegou na minha estação, me senti enjoado e, quando saí do vagão, minhas mãos tremiam como se eu estivesse em uma crise de abstinência de nicotina. Algo estava errado muito errado com aquele homem. Ele era, pensei, um tipo bizarro. Um sociopata, talvez, um daqueles cara super quietos que tem dúzias de cabeças no seu freezer... A primeira vítima havia sido a própria mãe.

    Peguei a mim mesma vadiando pela cidade durante a tarde depois do trabalho, parando nas lojas do shopping próximo ao metrô mesmo quando eu realmente não tinha intenção de comprar algo. Por umas duas semanas, evitei pegar aquele metrô e, quando me via parado na plataforma enquanto o trem chegava, certificava-me de entrar no vagão mais afastado o possível daquele em que ele normalmente ia.

     E então, numa outra manhã, vi outra pessoa que fez com que meu alarme disparasse.

    Uma mulher, tão comum quanto ele, tão fora do lugar como ele. O momento em que eu a reconheci, percebi mais tarde, foi o início da minha obsessão. Essa coisa de observar as pessoas, que havia começado como um passatempo para me livrar do tédio, virou praticamente uma religião pra mim. Eu não conseguia entrar em um metrô ou ônibus sem examinar minuciosamente todos, ticando mentalmente os requisitos de uma lista feita na minha própria cabeça. Roupas lisas de cores simples, sem marcas? Positivo. Sem expressões, sem olhares casuais para fora da janela ou para outros passageiros? Positivo. Sem pastas, bolsas ou acessórios? Positivo. Positivo, positivo, positivo! Nós temos mais um! Comecei a chamá-los de Estranhos.





     Eu não os via todos os dias, mesmo quando comecei a pegar o metrô mais frequentemente do que precisava, mesmo quando eu via a mim mesmo "passeando" de ônibus completamente fora do meu caminho durante a noite. Mas eles estavam lá com frequência suficiente. Ver um já fazia com que meus dentes rangessem, as palmas de minhas mãos suavam e minha garganta secava. Se você já deu um discurso, talvez essas sensações lhe sejam familiares. Mesmo que eles não prestassem a mínima atenção em mim, eu me sentia numa vitrine. Eu podia vê-los claramente! Como eles não me viam?

      Eles não viam, no entanto, não que eu pudesse notar. E quando minha curiosidade foi mais forte do que o meu medo, decidi seguir um deles. Escolhi aquele que achei primeiro, o homem das tardes no metrô que sempre sentava no mesmo banco. Sentei atrás dele. Fomos até o fim da linha juntos. Ele levantou e saiu antes de mim. Mantendo distância entre nós, eu o segui, mas ele não foi longe demais. Ele sentou em um banco próximo, sem expressão como sempre, e eu apenas esperei no canto, tentando parecer indiferente. Depois de alguns minutos, o próximo trem chegou e eu o vi entrar e sentar no mesmo assento. Não tive coragem de segui-lo novamente.

     Ele não foi para lugar nenhum! Ele foi até o metrô no fim da linha e o que? Voltou? Qual o possível motivo para ele, para qualquer um, fazer aquilo? Mesmo muito tempo depois de ter pego um trem mais tardio para casa, aquilo ainda me incomodava enquanto eu tentava descansar. Eu não poderia simplesmente deixar pra lá, não até que eu pudesse ver um sentido naquilo. Eu me vi mais do que confuso - estava realmente bravo agora. Por que esse filho da puta cheio de mistério, quase inumano, ficava indo e voltado no metrô, indo pra lugar nenhum? Certa vez li que a mente recua de certas coisas porque a mera visão delas é uma afronta. As aranhas fazem isso com algumas pessoas, especialmente as grandes. Simplesmente parecem erradas para nós, alien. Esse era o efeito que os Estranhos estavam começando a provocar em mim. Eles ofendiam meus sentidos.

     Eu o segui novamente no dia seguinte, e no dia depois. Todos os dias, por pelo menos uma semana, nós dois fizemos nossa longa jornada juntos, mesmo que só eu soubesse. No final da semana, eu o segui por horas até o último trem que parasse perto do meu apartamento. Fomos de ponta à ponta da cidade... E de volta. Eu não estava mais observando as pessoas. Eu estava observando uma pessoa, um Estranho. Eu não tinha olhos para mais ninguém, mesmo que, pela visão periférica, pudesse notar olhares confusos sobre mim. Além disso, para mim, éramos as únicas pessoas no planeta.

    Perdi meu emprego na semana seguinte. Meu chefe foi simpático e tímido, mas firme. Eu não me concentrava, não tinha foco. Não estava nem perto de ser produtivo. Foi um discurso e tanto, eu acho, mas mal pude ouvi-lo. Só conseguia pensar no meu novo trabalho, minha vigília. O que aquele homem, não, aquela coisa fazia enquanto eu não o estava vigiando? Deixei o trabalho pela última vez durante a tarde daquele dia. Normalmente eu teria começado a perseguir meu alvo às 17h30, mas tinha certeza de que ele estaria esperando por mim. Pensando bem agora, eu realmente gostaria de ter prestado atenção em como o estava o dia. Estava ensolarado? Era verão, afinal. Eu poderia ter andado pelo centro da cidade, puxado papo com algumas garotas. Poderia ter ido tomar um capuccino gelado e fumado um cigarro na porta de um café, depois ter ido pra casa e tirado essa obsessão ridícula da minha cabeça. Talvez achar um trabalho novo e, definitivamente, voltar a ler no metrô e no ônibus.

     No lugar, eu esperei. Mais de um trem vai até o fim da linha, então sentei na estação por pelo menos uma hora até que o vi pela janela. Entrei no vagão e notei que, pela primeira vez, minha pele não estava cheia de suor, minhas mãos não estavam tremendo, meu coração não estava prestes à sair pela boca. Eu sentei, pela primeira vez, bem na frente dele, diretamente em seu campo de visão. Esperei por alguma mudança em sua expressão. Ele não me reconheceu? Se sim. não vi nenhum sinal disso e eu estava prestando atenção. Devemos ter feito um belo par naquela tarde, um encarando o outro. Foi difícil segurar a crescente raiva dentro de mim para que não transparecesse em meu rosto, mas com esforço fui capaz de me manter tão calmo e sereno quando ele. Por dentro, eu praticamente gritava. Reaja, seu filho da puta! Olhe pra mim, porra! Eu sei o que você é!

     Eu não o fiz, no entanto, e minhas demandas silenciosas não foram atendidas na primeira viagem, nem na segunda, nem na terceira ou na décima. Juntos, fomos longe pela noite e, a cada terminal saíamos juntos e esperávamos. Eu sentava bem ao lado dele no banco, olhando-o com o canto do olho e, mesmo assim, nada. Mas dois podiam jogar esse jogo.

    Finalmente, fizemos nossa última viagem juntos. Eu o pegaria e sabia disso. Última viagem da noite antes que os trens parassem de funcionar. Eu sempre o deixava escapar naquele ponto, porque o fim da linha é bem longe da minha casa e os ônibus param de rodar ao mesmo tempo que os trens do metrô. Mas dessa vez eu o seguiria, finalmente o veria quando os trens parassem de funcionar. Eu teria algumas respostas, talvez.

    A ansiedade crescia dentro de mim enquanto o metrô parava pela última vez. O vagão foi esvaziado completamente à nossa volta, até que sobrássemos apenas nós dois debaixo da cidade. Lutei para manter um sorriso forçado e sob controle. O vagão começou a estacionar e então parou. Realmente, o fim da linha.

     O Estranho não se moveu, ainda assim não reagiu. O vagão ficou parado, portas abertas. Podia ouvir os últimos passageiros saindo da estação atrás de nós, os passos ecoando no silêncio. Nada. Os alto-falantes foram ligados para avisar qualquer um que ainda estivesse meio dormindo de que havíamos alcançado o fim da linha. Ainda nada. E finalmente, pude ouvir passos novamente. O condutor, ou algo do tipo, colocando sua cabeça para dentro do vagão, para ter certeza de que estava tudo vazio antes de levar o trem para seja lá o lugar que eles levam à noite. Não movi os olhos da minha silenciosa vítima.

     Pude ver o condutor com o canto do olho enquanto ele finalmente alcançava nosso vagão. Colocou a cabeça para dentro, seu olhar nos percorreu, acompanhando sua expressão confusa. Ele piscou algumas vezes e parou. Esperei que ele falasse algo enquanto o momento se arrastava, mas então, com um pequeno balanço de cabeça, ele nos deixou. Havia um carro à nossa frente e eu o ouvi parar para checá-lo também. Alguns minutos depois, o trem começou a se mover novamente. Nós andamos por pouco tempo até pararmos novamente. Pude ver, pela janela do vagão, outros vagões de trens parados ao lado do nosso e, através das janelas destes, mais trens e mais janelas...

     E então ele sorriu pra mim. Foi uma pequena curva da boca que não teria sido notada se eu não tivesse passado as últimas horas estudando seu rosto. "Então," ele disse, num barítono áspero. "Cá estamos."

     Tentei responder mas, de prontidão, não pude. Minha garganta havia se fechado em um estado. Fui preenchido por completo terror. Parecia que toda a estrutura na qual estávamos havia desabado sobre mim. Eu tossi e gaguejei até finalmente conseguir, com a voz rasgada, perguntar o que havia me deixado acordado por noites e me levado, não só à loucura, mas àquele local. "O que você é?"

     Ele me ignorou. Ficou em pé e as portas se abriram. Então, para minha surpresa, ele se virou para mim. "Você vem?" e sequer esperou por uma resposta, apenas foi até a plataforma. Fui rápido para segui-lo. "Vamos, porra!" eu gritei. "Fale comigo. Quem é você? O que é? Por que você fica no metrô o dia todo, caralho?" Ele não virou para trás ou sequer desacelerou o passo. Não pude ver sua face mas tinha certeza de que ele não havia esboçado uma reação sequer. Fui atrás dele, ainda resmungando por um tempo, mas eventualmente desisti. Cinco palavras eram tudo o que eu conseguiria arrancar dele, pensei.

     Andamos pela plataforma até chegarmos à um um cruzamento, então viramos. Agora estávamos perpendicular aos trens que nos rodeavam. O caminho à nossa frente estava iluminado por luzes que ficavam no alto, mas eu não conseguia ver até onde ia. Trens demais para servir uma só cidade, percebi. Não significou nada na hora, mas eu provavelmente deveria ter prestado mais atenção no momento.

     Não tenho certeza de por quanto tempo andamos. Eu tinha um relógio, mas quebrou. Peguei meu celular no meio do caminho, mas não havia sinal. O Estranho parava de vez em quando para olhar para um dos trens por um minuto ou dois, mas então continuava. Demorou um tempo para perceber, mas eventualmente notei que eles não eram os mesmos. Longas sequências deles eram similar, mas de vez em quando aparecia um modelo diferente. Mais largo, menor ou com um formato ligeiramente diferente. A cabine do piloto, ou seja lá o nome de onde fica o condutor, eram levemente diferentes também. Eu não sabia e ainda não sei exatamente o que ele estava procurando, mas ele deve, eventualmente, ter achado, porque viramos de novo e as portas do trem abriram novamente quando meu guia improvisado parou na frente delas. Entramos e tomamos nossos lugares.

     "Você está disposto a falar agora?" eu perguntei. Sem resposta. Suspirei frustrado e, na minha cabeça, passei os prós e os contras de socá-lo bem no meio da cara quando, de repente, as luzes do vagão se acenderam e eu ouvi o motor voltar a funcionar. "Mas que porra é essa?"

     Ele me olhou quase de maneira triste. "Você não vai conseguir voltar."

     "Do que você tá falando? Voltar para onde?" "nada novamente. Mas que otário! O trem balançava em movimento, indo para a direção oposto da qual viemos. Eu acho. A grande quantidade de trens naquele se movimentando naqueles trilhos havia confundido os meus sentidos por um tempo. Andou por mais alguns minutos, até diminuir a velocidade ao passo que nos aproximávamos da próxima parada. Seu olhar vago ficou, se possível, ainda mais sem emoção e, pela primeira vez, senti que ele realmente estava olhando pra mim, em vez de estar olhando para a direção na qual eu casualmente estava

     "Seja discreto, silencioso. Não chame a atenção deles."

     O trem parou, as portas abriram e eles começaram a inundar o vagão. Não sei o que notei primeiro - as roupas estranhas, os braços longos demais com mãos que quase se esfregavam no chão, os olhos negros e os rostos angulares, ou o tom azul-acinzentado da pele deles. Meus olhos captaram todo aquele estímulo mas, por um longo segundo, meu cérebro se recusou a processar tudo isso. Quando ele finalmente foi capaz de aceitar essas informações, mal consegui segurar o grito preso em minha garganta que tentava escapar desesperadamente. Pensei que meu coração fosse explodir. Porra... Pensei que eu fosse explodir. Eu era como uma corda de guitarra que havia acabado de ser tocada, tudo em mim tremia e latejava. Minha visão ficou turva e eu agradeci mentalmente por isso, e então vomitei. Minha boca estava completamente fechava e eu me forcei a engolir, com muita dificuldade. Meus instintos gritavam as palavras que ele me havia dito - Seja discreto! Silencioso! Não chame a atenção deles!

     Aquele dia é um burrão. Nós andamos de metrô para cima e para baixo naqueles trilhos, parados e sem expressão, por horas... Por dias, talvez. Aqueles trilhos pareciam muito mais longos do que aqueles que eu conhecia, aqueles pelos quais eu havia seguido o Estranho. Aquelas coisas horrorosas à nossa volta pareciam sequer prestar atenção em nós, mesmo que, com certeza, nos destacássemos. Eu estava tão paralisado de medo que, quando voltamos àquela caverna da onde saía uma quantidade interminável de trens, sozinhos, eu desabei em lágrimas. Joguei-me no chão e chorei por um longo tempo, o Estranho assistindo sem reação.

     Quando finalmente recuperei o controle de mim mesmo, olhei para ele, implorando "Leve-me pra casa" eu choraminguei. "Por favor."

     "Eu não posso," ele me disse. "Não sei qual desses te levaria de volta. Se é que algum deles faria isso." Ele ficou em pé e saiu para a plataforma. Levantei cansado e o segui. Ele virou-se sério "Acho que você já me seguiu o suficiente."

     Toda a raiva que eu senti por ele antes e o pânico que eu estava sentindo se juntaram e eu explodi. "O que?" eu gritei, andando rapidamente. Segurei-o pelos ombros com uma explosão de força que eu nem sabia que estava em mim, jogando-o na parede ao lado do trem. "Seu filho da puta! O que você fez comigo, porra?" Eu o bati na parede de novo. "Leve-me de volta!" Ele sequer reagiu à tudo aquilo e logo o surto de raiva em mim passou, me deixando vazio. "Por favor," eu implorei, "por favor, me leve pra casa."

     "Não é assim que funciona." ele disse. "Se ficarmos juntos, é mais provável que seremos notados. Fique por conta própria. Discreto e sorrateiro, eles pensarão que você é um deles."

     "Como você pôde fazer isso comigo? Por quê?"

     Ele me observou novamente com um olhar quase triste. "Eu tive que fazer isso. Você também fará. Você fica... preso, às vezes." Ele tirou minhas mãos de seus ombros e virou-se, andando para longe de mim. Caí sobre meus joelhos, de repente sem força alguma, e o observei indo embora. No cruzamento, ele virou novamente para mim. "Desculpe-me." e então ele se foi.

     Fiquei lá, ajoelho sobre o azulejo frio, por um longo tempo. Curvei-me em posição fetal e chorei por um tempo. Depois, quando já não haviam mais lágrimas em mim, eu dormi por um tempo. Quando acordei, o trem pelo qual eu havia vindo já não estava mais lá - tinha saído para levar mais daquelas criaturas azuis abominantes para seja lá onde criaturas azuis abominantes vão. Eu não conseguiria lidar com aquelas coisas novamente, de qualquer maneira.

     Tentei achar o meu caminho de volta para de onde comecei, tentando achar um trem que eu reconhecesse mas eu não tinha a mínima certeza da direção que deveria tomar. Andei por uma hora, e mais uma hora. Finalmente, achei um vagão que me pareceu familiar. Ou eu estava tão desesperado que pensei reconhecê-lo. Parei em frente a porta e entrei assim que ela abriu. Sentei-me. O trem começou a andar e, mesmo tendo sido agnóstico a maior parte da minha vida, rezei como nunca. O metrô começou a parar novamente, as portas se abriram e, por um segundo, pensei estar a salvo. Pessoas! Humanos! Eu passaria a ser o homem mais religioso do mundo!

     Então, notei os olhos. Mais especificamente o enorme terceiro olho no meio das testas. Bom, Deus, vá se foder.

     Eles eram mais fáceis de assimilar que os últimos, pensei, e fiquei muito agradecido por isso. O terceiro olho, no entanto, piscava independentemente dos outros dois e isso era nauseante. E então eles sorriam ou riam ou falavam um com o outro e eu não pude deixar de notar que seus dentes eram pontudos e esverdeados como sujeira. Mas se eu fosse cuidadoso e com uma "cegueira seletiva" poderia, por um momento, fingir que estava em casa. Até que um deles entrou com um sanduíche em mãos e eu percebei que estava faminto, não tendo bebido ou comido nada há dias.
   
     Alcançamos o próximo terminal e eu decidi procurar por algo para comer ou beber. Não sei por que esperei, mas pareceu importante que eu fosse até o fim da linha. Cheguei lá e mal conseguia sair do vagão. Nunca havia visto o Estranho sair do subterrâneo - nunca havia o visto comer ou beber também. Meu estômago, no entanto, não aceitaria não como resposta. Preparei-me e tentei manter uma expressão facial neutra, então tentando sair da estação da maneira mais apropriada. Fiquei confuso.

     Procurei por elevadores, escadas ou algo do tipo, mas tudo o que eu via eram buracos no chão, nas paredes e no teto. Buracos irregulares, como se eu estivesse no meio de uma hora. O que eu deveria fazer? Mergulhar em um deles? Não fazia sentido nenhum pra mim, até que alguém saiu de um deles. Ele flutuou do chão e depois passou por mim. Franziu o cenho por um segundo, ou eu pensei que aquilo era franzir o cenho, mas aparentemente não percebeu que eu era um alien. Mesmo assim, não fui capaz de levitar, o que era aparentemente o único modo de sair daquela estação. Resmungando, fiz meu caminho de volta para o túnel.

     Eu estava irritado, perdido, faminto e havia sido abandonado para um destino que, se não fosse pior do que o inferno, era pelo menos duplamente estúpido e três vezes mais sem sentido. Eu não estava em perfeito estado mental, o que, penso eu, justifica o erro. Normalmente, quando eu passo por cruzamentos, passo longe da parede, já que todos sabem que há grandes chances de se esbarrar com alguém em lugares públicos, dessa maneira. E foi o que aconteceu. Trombei com alguém, uma mulher, e caí no chão. Sem pensar, reagi como qualquer nova iorquino reagiria - mal. "Puta merda, sua vadia estúpida! Olhe por onde anda!"

     Notei meu erro antes mesmo que ela o fizesse. Seu olhar se tornou intrigado e confuso, e quando ela realmente percebeu o que eu era, encheu-se de pavor. Ela saltou - ou flutuou rapidamente, seja lá o que foi aquele movimento - para longe de mim e guinchou algo parecido com um grito. Um pouco mais esganiçado do que eu estava acostumado, mas eu entendi o que significava. Mais fundo no túnel, pude ver aliens; cabeças com três olhos vindo rapidamente em nossa direção. Pensei naqueles dentes sujos e pontudos e não pensei duas vezes antes de sair correndo. O metrô não estava lá, mas havia uma longa passarela pelo túnel - para o staff ou algo do tipo, presumi. De onde eu vim, pelo menos, aquela passarela serviria para isso. Fui na maior velocidade que pude até que cada inspiração doesse como se eu estivesse sendo esfaqueado. Parei, arfando, e olhei para trás. O túnel fazia uma curva, então não podia mais ver nenhuma luz de onde estava, mas ninguém parecia estar me seguindo. Voltar, no entanto, não era uma opção.

     Continuei a andar no escuro por um longo tempo. Eventualmente cheguei à uma pequena abertura na parede e parei por lá para um descanso. Fome, desespero e uma corrida em velocidade total haviam me deixando completamente esgotado. Eu provavelmente choraria de novo, o que parecia ser a única coisa que eu era capaz de fazer, mas até isso parecia trabalhoso demais. Sentei contra a parede de pernas esticadas e me imaginei espancando aquele Estranho com um martelo até a morte. Foi uma imagem que me deixou aliviado.

      Um rato me rodeava no escuro. De vez em quando eu movia as pernas, dando alguns chutes a fim de assustá-lo, mas depois de um tempo nem isso me preocupava mais. Raiva ou qualquer outra doença que aquele bicho tivesse parecia uma bênção comparada à essa viagem interminável pelos túneis subterrâneos dos mundos estranhos. Perdido, desamparado e sozinho. Quando se aproximou de mim novamente, eu não o chutei. Mesmo quando alcançou minha perna e ficou andando por lá, não consegui me importar. Não até que um trem passou e as luzes dos vagões iluminaram ao corredor e àquela coisa que eu pensei que fosse um rato.

     Parecia um rato, sim, mas ao mesmo tempo parecia uma aranha. Se alguém tivesse misturado esses dois animais, o resultado provavelmente teria sido tão aterrorizando quanto àquela coisa rondando minhas pernas. Eu me sacudi, levantei do chão e chutei aquilo como um jogador de futebol faria, certeiro na parede. Suas costas fizeram um barulho terrível e eu assisti àquele bicho se contorcer pelas últimas vezes antes do último trem passar e tudo retornar à escuridão.

     E foi na escuridão que me ocorreu um pensamento terrível. Eu me perguntei se aquilo era comestível. Eu não queria, não, e engasguei só de imaginar, mas estava faminto e não havia garantia alguma de que eu conseguiria achar comida naquele lugar ou em qualquer outro, num futuro próximo. O rato-aranha era minha única opção. Segurei-me o máximo que pude mas, no fim, o instinto de sobrevivência falou mais alto.Eu tinha um isqueiro, mas nada para colocar para esquentar. Peguei pedaços de carne de sua carcaça e cozinhei-os um pouco segurando-os em cima da chama, mas não ajudou muito. Nada ajudaria. Sua carne era escassa, mais do que você pode imaginar. Estive desesperado por comida como aquele dia algumas vezes depois, tendo comido outras coisas realmente questionáveis, mas nada jamais pode ser comparado ao rato-aranha.

    Pensando bem, aquele foi o momento em que eu me tornei um Estranho. Antes, eu me esforçava para conseguir aquela feição sem emoção que os outros possuíam. Por calma, eu entendia falta de emoção. Uma pedra pontuda em um rio, ao decorrer do tempo, tem suas bordas arredondadas pelo constante bater das águas sobre ela. Era isso o que acontecia comigo. Rasgar e me alimentar de um monstro na escuridão, debaixo de um mundo alienígena... Meus limites haviam sido ultrapassados. Ao passo que deixei aquele corredor escuro e retornei ao túnel onde ficavam os trens, estava tão dormente e vazio como aquele que havia me deixado aqui.

     Aquilo, no entanto, ainda não era o pior. O pior veio depois, na primeira vez em que fiquei preso. O Estranho havia mencionado algo do tipo, mas no estado que eu estava, mal havia prestado atenção. Uma noite, no fim da linha, solicitaram que deixássemos o trem. Aquele mundo era quase próximo ao normal. As pessoas eram quase humanas, pelo menos de acordo com a minha memória. Eles eram laranjas, claro, e corcundas, mas além disso, eram praticamente normais. Depois do mundo anterior, no qual as pessoas eram hermafroditas extremamente acima do peso, com seis seios e nenhum nariz, os carinhas laranjas eram praticamente lindos ao meu ver.

     Pensei, de primeira, que o condutor falava com outra pessoa, mas eu era o único no vagão. E mais do que isso, eu conseguia compreendê-lo. Os Laranjas certamente não haviam falado qualquer idioma humano durante o dia, mas mesmo assim, eu conseguia entender o que ele falava. Quando me levantei, comecei a entender. Não conseguia ficar ereto. Eu estava corcunda e, vendo meu reflexo na janela enquanto eu saía do trem, laranja também. Entendi o resto dali. Estar preso significava que eu estava preso naquele mundo e, por alguma razão, fisicamente semelhante àqueles que lá viviam também. Claro, isso seria útil caso eu quisesse sair da estação por alguma razão - o que era possível na maioria das vezes, mas requer muito cuidado e é exaustivo. Mundos alienígenas são levemente revoltantes, descobri. Você tenta compará-los com o seu mas as diferenças são tão discrepantes que você chega a ficar enojado.

     Deixei o trem, de qualquer forma, porque estava na cara que eu não conseguiria voltar para aquela estação central (a que haviam infinitos trilhos de metrô) naquela noite. Ou em qualquer outra noite, logo descobri. Qualquer que tenha sido a maneira que me fazia não ser notado, não funcionava mais. Por um breve momento, considerei ficar. Mas aquele lugar não era, e jamais seria, a minha casa. Mesmo que eles se parecessem comigo, sua cultura era diferente. Aquela era uma lição que eu já havia aprendido. Mesmo em mundos onde as pessoas se parecem muito comigo, eu fico completamente apavorado. Estive uma vez em um mundo no qual as pessoas eram iguais à mim - na verdade, eles pareciam brasileiros, mas eram "iguais" o suficiente - e aprendi, da maneira difícil, que o gesto que, pra mim, significava um simples "olá" significava, para eles, algo realmente ofensivo. Ofensivo o suficiente para que eu fosse espancado quase até a morte enquanto uma multidão olhava, em volta, com aprovação.

     Além disso, mesmo que aquele mundo possuísse uma cultura que eu podia absorver, eu não queria ficar. Eu queria duas coisas: ir para casa ou achar o Estranho que me trouxe para esse lugar e espancá-lo até a morte. Nada mais serviria.

     Então eu queria seguir em frente. Não tinha certeza, no entanto, se eu poderia fazer com alguém o que havia sido feito comigo. Será que eu realmente poderia forçar alguém para o eterno submundo comigo? Acontece que eu não precisava. Depois de alguns meses um deles me notou, sim, e começou a me seguir por semanas. Tomei muito cuidado para que ele não percebesse que eu o havia visto, assim como o Estranho havia feito comigo. Estava dividido entre o desejo de alertá-lo para que se salvasse e o desejo de trazê-lo, junto comigo, para o fim da linha e deixar seu mundo terrível o mais rápido possível.

     Na última noite, ele me seguiu até o fim da linha, assim como eu já havia feito uma vez. Não teve a ousadia de sentar bem na minha frente, no entanto. E assim que o trem parou no terminal, ele saiu correndo. Eu esperei, torcendo para que o condutor não me visse e eu pudesse continuar lá, mas não deu certo. Deixei o vagão e o trem continuou sem mim. Xinguei por dentro. Enquanto eu caminhava pelo canto em direção às bilheterias, ele atacou. Ele tinha uma faca curvada e sua intenção era me pegar de surpresa, mas eu já estava viajando por esses hostis mundos alienígenas por anos. Meus reflexos eram rápidos.

     Lutamos violentamente até que eu conseguisse tirar a faca das mãos dele. Não sei como acabei ficando com ela próxima do seu pescoço. Não acho que quisesse matá-lo. Não estava tão bravo, comparado ao que tinha estado antes. Depois, enquanto ele estava lá deitado, sangrando, fiquei furioso. Chutei-o repetidamente, gritando. "Seu idiota! Você devia..." chutes e mais chutes "... ter me seguido!" Mais chutes. Saí correndo da cena do crime, mas não fiquei longe por muito tempo. Lá estava eu no dia seguinte, bem cedo, para pegar o primeiro trem da manhã. E aquela noite, quando segui até o fim da linha, estava invisível para o condutor novamente. Presumo que você pode matá-los ou levá-los com você para retornar à estação central.

     Eu era invisível de novo, mas ainda era laranja e corcunda. Fiquei daquele jeito até ficar preso novamente. Dessa vez eu matei e foi muito mais rápido. Não queria que ela me seguisse. Assim que eu fui reconhecido como um Estranho, eu a reconheci como a próxima vítima e fiz minha escolha. Não vou trazer mais ninguém pra isso.

     Fico pensando, no entanto, sobre o Estranho que me induziu à isso. Imagino como ele realmente era antes e se ele sabia que poderia ter me matado. Imagino, também, sobre os outros que vi quando ainda estava em casa e os outros poucos que vi desde que isso começou. Eles os matam ou os levam? E o que eles escolhem, consideram como um ato misericordioso? Não consigo falar com eles, perguntar. Estamos na merda de qualquer forma e devemos sofrer em solidão.
   
     Já matei quinze deles agora e fiquei muito bom nisso. Mas fiz uma decisão. Estou farto de matar - inocentes, pelo menos. Antes de retornar à estação central, enchi uma mochila com o máximo de papel que coube nela e escrevi essa história. Escrevi-a várias vezes para deixar no máximo de trens possíveis. Milhares de mensagens em garrafas, lançadas em um mar de trilhos de aço. Isso é um pedido e um aviso.

     Meu pedido, acima, é que você ache minha mãe e conte uma mentira. É uma mentira inofensiva, não se preocupe. Diga à ela que eu a amo e que estou tentando voltar para casa. Talvez dê à ela um pouco de esperança ou paz. Queria que fosse verdade também. Mas aqui está: tenho pensado em mim como uma espécie de Odisseu, perdido e à deriva, tentando voltar para uma costa familiar. Mas não estou perdido no mar. Estou perdido em túneis intermináveis - o labirinto. A diferença é importante, porque labirintos são projetados, construídos. Alguém ou algo "fabricou" esse lugar impossível. E eles devem ser punidos pelo que fizeram à mim. Fui escalado como Teseu, não Odisseu, mas não vou mais interpretar esse papel. As estranhas regras desse lugar me transformaram do humano que eu era em algo diferente, e depois algo mais diferente ainda. Eles fizeram de mim um monstro, então eu serei o Minotauro desse labirinto. E se eu conseguir, vou acabar com tudo isso à minha volta e destruir aqueles que o fizeram junto.

     Meu aviso é que você deve ser bastante cauteloso, em locais públicos, com pessoas silenciosas, mulheres ou homens. Mantenha distância. Eles podem te matar, ou fazer pior. Se você os vir, corra rápido e para longe. E mais importante de tudo, eu te aviso, te imploro: Não vá até o fim da linha.




(Creepypasta traduzida e adaptada por Natália Facchini @NanisF)

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